Aonde os olhos não podem te levar – 06/07/2022 – Zeca Camargo

 

Estou de castigo. Recupero-me lentamente de uma cirurgia para reparar um descolamento de retina, e escrevo hoje da minha poltrona mais confortável, que me assegura uma inclinação de 45° do meu tronco, indicada pelo meu brilhante oftalmologista.

Amigos próximos insinuam que tal castigo é uma auto sabotagem: sem respeitar os limites de um corpo que já se encaminha para os 60 anos, meu organismo então achou um jeito de me obrigar a parar. Um argumento, diga-se, com o qual tendo a concordar.

Fato é que estou praticamente isolado na minha residência paulistana, impossibilitado mesmo de sequer deixar São Paulo. O procedimento deixou meu olho ultrassensível a variações de pressão atmosférica e, assim, não posso viajar, por exemplo, para Campos do Jordão. Ou para Santos. Por quase um mês!

A recuperação está bem encaminhada, ainda que lenta. Duas semanas depois da cirurgia, o desconforto arreliento dos primeiros dias do pós-operatório se transformou em aceitação.

Para um espírito viajante como o meu (e o seu), tem sido um tortuoso aprendizado. E tive que buscar na literatura uma inspiração para escapar.

No livro “Reparação”, do grande Ian McEwan, li um dos capítulos mais fascinantes da literatura contemporânea. Presa no seu quarto escuro com um enxaqueca destruidora, a matriarca da família, Emily, consegue deixar sua mente caminhar por toda a casa, dando conta de cada detalhe da rotina familiar sem precisar abrir os olhos.

Cito essa passagem porque, mais de uma vez neste meu repouso, me pego numa situação semelhante: deixo memória e desejo me transportarem por destinos cumpridos e sonhados, para muito além do meu quarto, da minha casa.

Hoje, então, comecei meu passeio descalço pelas areias de Caraíva, Bahia. O gostoso calor daquelas ruas sem compromisso foi ficando cada vez mais insuportável até eu perceber que estava numa das saunas de um lugar chamado Russian Bath House, em Nova York, onde um de seus imensos recepcionistas, vestido apenas com uma toalha frouxa, sovava minhas costas com ramos de eucalipto.

Fugi para o Çemberlitas, em Istambul, onde o banho turco é pontuado por uma massagem nem sempre gentil com espuma. Saio de lá para o mercado de tendas labirínticas da praça Jemaa el-Fna em Marrakesh.

Sinto fome e logo estou sentado num restaurante que só tem pratos defumados, no subsolo de uma entrada apertada no bairro de Shibuya, em Tóquio. Ainda nem saciei minha fome, e estou agora num caravansarai no centro histórico de Baku, capital do Azerbaijão, bebendo a quarta ou quinta rodada de shot de vodca, na esperança de que embriagado eu posso encarar a sopa de gordura que ele gentilmente oferece.

A sobremesa é em Tiradentes, Minas Gerais, onde, embaixo de uma árvore frondosa, eu saboreio o melhor bolo de tangerina do mundo. Faço a digestão pelo deserto de Atacama, Chile, com o ar tão seco que chega a sangrar meu nariz.

O desconforto só cresce e estou deitado no chão do meu hotel em Londres na véspera de entrevistar Paul McCartney, o corpo paralisado por cãibras de ansiedade. Mas, quem chega para o encontro é Keith Richards, e já estamos numa suíte olhando para as Tulherias na capital francesa.

Vou jantar, ainda em Paris, no Roseval, fechado desde 2014, numa pequena esquina do 20éme. E de lá para as águas do templo Tirta Empul, em Bali.

Depois para a vista do mar em Baía Formosa, Rio Grande do Norte. Depois, para o por do sol no Parque Etosha, Namíbia. Depois, para a espera infinita por uma aurora boreal em Alta, Noruega. Para, então, voltar à minha poltrona reclinada a 45°, à espera de um novo itinerário.

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