As seis ruas mais pretas e lindas do Brasil – 29/06/2022 – Guia Negro

 

O Brasil não conhece o Brasil. Complemento a frase clássica da música Querelas do Brasil para dizer que o Brasil não conhece e valoriza as histórias e cultura negras. Para contribuir nessa imersão, o Guia Negro preparou uma lista de ruas que merecem uma visita (pode ser até virtualmente) e que abrigam potências e heranças africanas. Coloque na sua lista de desejos de viagem e bora potencializar nossas riquezas da diáspora negra.

1 – Ladeira do Curuzu, Bairro do Curuzu, Salvador

“Quem é que sobe a Ladeira do Curuzu?”. A rua foi eternizada pelo bloco afro Ilê Aiyê que tem nela sua sede, a Senzala do Barro Preto, onde há escola e eventos como a Noite da Beleza Negra, além dos ensaios do bloco. Por lá, também ficam os terreiros de candomblé Jitolu, que dá origem ao Ilê Aiyê, e o Vodun Zo, um dos mais antigos da cidade e tombado pelo patrimônio histórico municipal. Há ainda uma série de salões de cabelereiro e barbearias especializados em estética afro, como o de Gerusa Menezzes. Um dos fundadores do Ilê Apolinário de Jesus, o Popô, tem um busto em sua homenagem numa das esquinas. Também é possível comer a típica feijoada baiana ou fazer uma resenha tomando uma cerveja nos bares e depósitos da ladeira, que foi recentemente revitalizada e abriga bancos e placas sinalizadoras.

2 – Rua Eva Maria de Jesus, Comunidade Tia Eva, Campo Grande

A via corta a comunidade quilombola Tia Eva na área urbana da capital do Mato Grosso do Sul. Por lá, fica a Igreja São Benedito, a mais antiga da cidade, construída em 1919 e que abriga uma antiga imagem de Santo Antônio, que acompanhou a escravizada liberta Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, no seu percurso até chegar na cidade. Também são realizadas festas para São Benedito no mês de maio e há trancistas que fazem penteados afro. É possível visitar o centro comunitário, que recebe eventos, além de comércios locais ou simplesmente trocar um dedo de prosa com algum descendente de Tia Eva, tomando tereré (bebida gelada com erva mate típica da região).

3 – Rua São Francisco da Prainha, Gamboa, Rio

É uma pequena rua de paralelepípedos no coração da Gamboa, sub bairro da Saúde, que foi eleito pela Revista Time Out com um dos 50 bairros mais legais do mundo, o único no Brasil na lista. A rua começa no Largo da Prainha, onde está a estátua de Mercedes Baptista, a única de uma mulher negra no Rio, que foi precursora da dança afro, teve sua própria companhia de dança e foi a primeira mulher negra a dançar no Theatro Municipal do Rio. Ali, acontece o samba das mulheres do Moça Prosa, que têm travado uma disputa com comerciantes do local para continuar se apresentando. Há diversos bares e restaurantes onde é possível comer e beber na calçada. A rua é ladeada de sobrados antigos, grafites e barracas que vendem bebidas e comida de rua, onde há fluxo de jovens dançando música nas noites de segunda e sexta, quando acontecem os sambas na Pedra do Sal, que fica no final de sua extensão. O local é considerado um quilombo urbano e carrega história e energias fortes, é berço do samba carioca e, também, dá acesso ao Morro da Conceição, onde fica a Casa Omolokum, restaurante que faz releituras de comidas de terreiro.

4 – Rua Dom José de Barros, República, São Paulo

No centro da capital paulistana, a rua em formato de calçadão abriga camelôs durante o dia e trabalhadores da região central, em sua maioria negros, confraternizando à noite. Tem roda de samba; o marco zero do hip hop (inscrição na calçada em homenagem aos precursores do ritmo que ali se apresentavam). Dá acesso à Galeria do Reggae, reduto dos imigrantes africanos que vendem cabelos, roupas, comida e produtos musicais. O Rei do Prato Feito reúne os amantes do samba rock que bailam no interior do bar e na rua. Já a Galeria Olido é palco de aulas do ritmo. O Sesc 24 de Maio pegou o espírito da rua e inaugurou, em 2017, com a exposição Jamaica, Jamaica. Por ali, fica ainda a Trackers que abrigou a festa Discopedia, que hoje migrou para Pinheiros. O calçadão segue até em frente ao Largo Paissandu, onde fica a Igreja Rosário dos Pretos e a estátua da Mãe Preta, que por anos foi o único monumento de mulher negra na cidade e que, apesar de um retrato servil, foi ressignificada pelo movimento negro sendo, hoje, o local de término do cortejo do bloco afro Ilú Obá de Min, nas sextas de carnaval e da Marcha das Mulheres Negras no 25 de julho.

5 – Rua Thomé de Souza, Bairro da Liberdade, São Luís

A principal rua do maior quilombo urbano das Américas, o bairro da Liberdade, em São Luís, tem gente preta até onde os olhos podem alcançar. A Liberdade tem hoje, pelo menos, 25 pontos de interesse turísticos, conforme o Guia Negro apontou. São diversos terreiros e sedes de “bois”, como o da Floresta e do Boi de Leonardo, que nesse mês de junho recebe festas de bumba meu boi. O complexo tem atraído atenção de visitantes que querem passeios para além das praias. Pela via estreita ladeada de casas simples, há também terreiros como o Yle Ashe Ogum Logbo e o Yle Ashe Oba Yzoo.

6 – Avenida Luiz Guaranha, Quilombo Areal no Menino Deus, Porto Alegre

Fica no meio de um bairro de classe média, que no passado já foi um local de esconderijo e depois moradia para pessoas negras, onde inclusive nasceu o samba na capital gaúcha que hoje pode ser curtido no Boteko do Caninha, que fica perto da rua. Com o nome de avenida, a pequena via sem saída é uma das últimas resistências negras do bairro. É rodeada por casas simples e baixas com alguns grafites que retratam mulheres negras e abriga a Associação Comunitário Quilombo do Areal, onde por anos a escritora Maria Helena Vargas, hoje falecida, fez trabalho de leitura com a comunidade. Há ainda a escola de samba e o time de futebol Areal do Futuro, que oferece oficinas de percussão e dança e organiza ensaios na rua e carnaval. A comunidade busca o reconhecimento de área quilombola e é sempre importante lembrar: tem negros no Sul!

E, você, quais outras ruas incluiria na lista?

PS 1: Adoraria ver as prefeituras e ou empresas colocando placas sinalizando que essas ruas foram eleitas as mais pretas e lindas do Brasil atraindo mais turistas para elas, assim como ocorre com outras listas do setor.

PS 2: Quando isso ocorrer ou quando reproduzirem essa lista não se esqueçam de dizer que ela foi elaborada pelo Guia Negro

Colaborou a atriz Vera Lopes

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