Assentos confortáveis no avião só são possíveis na teoria – 13/07/2022 – Josimar Melo

 

Me parece uma grande contradição.

Nos tempos pós-pandemia (se é que já chegaram), explodem as viagens, hotéis, e aviões lotam. Não que seja um fenômeno unicamente do turismo. Em tudo o que acontece agora com presença de público, há uma presença exponencial de público.

Competições esportivas mundo afora? Bombando de público. Bienal do Livro de São Paulo? Recorde (ou quase) de visitantes. Entrega de prêmios de gastronomia da revista Prazeres da Mesa? Nunca vi tão lotada.

Parece uma coisa lógica. Depois de tanto tempo trancafiados em casa, e depois da quarentena mais um bom tempo sem grandes eventos presenciais, as pessoas estão sedentas por uma “aglomeração do bem” –ou seja, participar de eventos relevantes e, ao mesmo tempo, poder confraternizar com seus semelhantes.

Onde está, então, a contradição mencionada no primeiro parágrafo? Não numa inexistente oposição entre o desejo das pessoas de se encontrarem e os perigos que ainda residem (literalmente) no ar.

O que me chama a atenção é, sim, a falta de sensibilidade dos responsáveis por espaços públicos diante deste natural desejo pelo desafogo por parte das pessoas. Ainda mais considerando que esta corrida pelos locais de reencontro pode dar muito lucro para os responsáveis por eles —que poderiam, como retribuição, oferecer gentis contrapartidas.

O que eu vejo pela frente, porém, é bem diferente. Tomo como exemplo os estudos que vêm sendo feitos sobre como otimizar o espaço das aeronaves, e que, em geral, são voltados para empilhar mais gente (e mais dinheiro) em menos espaço.

Talvez você se lembre da brilhante ideia que tiveram tempos atrás, de fazer nos aviões “assentos de pé” –praticamente apoios de bunda em que a vítima aérea apenas se recostava num apoio vertical.

Agora é a vez dos assentos “double decked” –com fileiras sucessivas em dois níveis, sendo que, ao passageiro de baixo, resta a visão claustrofóbica dos fundos do assento de cima.

Nenhuma surpresa, tudo dentro da lógica capitalista de ganhar o máximo às custas do sofrimento máximo do máximo de pessoas. Um velho normal.

Bom saber também que, ao mesmo tempo, há gente indo no caminho contrário, pensando no bem-estar de seus semelhantes. Não, não me entenda mal, não são os magnatas (ou os que vivem das suas migalhas, especialmente quando são de capital aberto) das companhias aéreas. São apenas os sonhadores de sempre.

É o caso dos designers que criam coisas que, na maioria das vezes, não sairão das pranchetas (quer dizer, das telas). Por exemplo: na recente feira AIX (Aircraft Interiors Expo, exposição de interiores de aeronaves, na cidade francesa de Aix-en-Provence), foram premiados designs criativos focados em saúde, segurança e configurações flexíveis.

O que mais me encantou foi de um time que começou concebendo um avião elétrico num tamanho que facilitaria o uso de aeroportos menores. E o desenho do interior da aeronave, assinado por Ken Kirtland, do Georgia Institute of Technology, em que estão assentos dispostos em diferentes posições, com vistas através de grandes janelas.

Outros projetos visionários estiveram ali na feira, e por toda parte no mundo. A angústia é ver tantas boas ideias —provando que é possível pensar no cidadão, no consumidor, com uma cabeça generosa e artística— mas dificilmente vê-las em prática, porque implicariam uma margem de lucro menor. E, por esta lógica, é preciso maltratar (e não premiar) quem dá a eles este lucro todo.

Faz sentido pra você? Para mim parece uma grande contradição. Pensando, é claro, como parte dos 99% dos componentes do ser humano, não como o restante que se locupleta com nossas noites insones, no ar ou em terra.

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