Cobra em fuga leva pânico e êxtase a Perdizes – 24/06/2022 – Cozinha Bruta

 

Perdizes, na zona oeste de São Paulo, é o bairro que eu escolhi para morar. Confesso que às vezes tenho inveja dos cronistas residentes em cantos mais interessantes.

Perdizes não é nenhum Village, nenhum Marais. Não tem o caos pulsante de Copacabana. Carece de músculo para a surra sensorial que o Pelourinho sabe bem dar. A avenida Paulista e a Liberdade, com o desfile incessante de tipos e figuras, fornecem muito mais material de prosa.

Se às vezes sinto inveja de outras vizinhanças, na maior parte do tempo estou bem confortável aqui em Perdizes. Morar no olho do furacão costuma ser incômodo: melhor visitá-lo só quando bate a vontade de pegar vento.

Pouco acontece em Perdizes que seja digno de nota. Aqui trabalhamos na média. As famílias são de classe média, as ruas não são feias nem bonitas, quase nada é péssimo ou excelente.

Meus contatos nas redes sociais sempre pedem dicas de restaurantes no bairro onde moro. Sou obrigado a responder “veja bem”. Tem umas comidinhas legais por aqui, gosto das pizzas de entrega, mas nada que valha a locomoção de outra parte da cidade.

Até esta semana, o que fazia a fama de Perdizes eram as ladeiras quase verticais. O morador daqui (perdigueiro é o gentílico?) exercita bem as panturrilhas. Até esta semana, quando algo eletrizante aconteceu em Perdizes.

Sylas, uma cobra jiboia de estimação, escapou sabe-se lá como de um apartamento ali atrás da PUC. O bairro está em polvorosa, finge pânico e não consegue disfarçar a excitação.

O grupo de zap do meu prédio, a um quilômetro da cena da fuga, ficou floodado de emojis de serpentes e carinhas apavoradas. “Q absurdo, ninguém merece passar por isso”, escreveu uma vizinha. Outra comentou que uma amiga, aterrorizada, se exilou em outro bairro até a cobra aparecer.

O desaparecimento também incendiou a comunidade de Facebook chamada Dicas de Perdizes –algo como um grupo de zap estendido, uma central de mexericos deste burgo.

Sylas, uma jiboia macho, já buscava o estrelato antes de fugir de casa. Sua dona criou um perfil para ele no Instagram, que agora tem 22 mil seguidores. Lá, Sylas aparece em poses pouco ameaçadoras, com chapéu de festinha de aniversário ou gorrinho de tricô.

A cobra dividia o apartamento com um gato e um cachorro e, segundo a tutora –assim que se fala, né?–, é absolutamente inofensiva. Ao anunciar o sumiço do Sylas, ela pediu para que ninguém se assustasse ou machucasse o animal.

De fato, Sylas não parece oferecer perigo. Na ladeira em que sumiu, deve ter descido –faltam-lhe pernas para subir a Vanderlei ou a Caiubi. Provavelmente está com fome.

Se a região tivesse as perdizes que lhe dão o nome, talvez Sylas encontrasse almoço por aí. Maior é a chance, porém, de que a cobra tenha entrado num bueiro e virado janta de ratazana.

Rato do esgoto não dá clique nem assunto no grupo do condomínio. Deixemos Perdizes ter assunto. Isso não é comum por aqui.

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