Pantaneira não vira onça, mas dá nome a uma – 13/07/2022 – Guia Negro

 

Juana Judith Apaza Huampo tem 32 anos e vive há seis na Serra do Amolar, um conjunto de morros localizado no Pantanal, nas divisas dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, na fronteira com a Bolívia. São 276 mil hectares de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), que em setembro de 2020 foi invadida pelo fogo por quase 100 dias. As chamas avançavam de forma incessante sobre uma paisagem antes conhecida pelos alagados, mas que estava seca, por conta da falta de chuvas.

Centenas de brigadistas foram tentar conter as labaredas e ficaram hospedados na base do Instituto do Homem Pantaneiro (IHP), organização não-governamental de defesa do meio ambiente que administra cinco áreas da região. Juana fez o mesmo papel de Filó, personagem de Dira Paes na novela Pantanal, no ar na TV Globo, e cozinhou para bombeiros, brigadistas e jornalistas. Ficou de setembro a dezembro de 2020 cozinhando para todos eles. Nos primeiros 40 dias trabalhava sozinha, até ganhar reforço.

O fogo chegou a rodear a casa e ela tinha medo das chamas entrarem. Nesse cenário de destruição, foi encontrada na mata uma onça com as patas queimadas. Juana foi decisiva para o resgate – já que insistiu que o animal precisava de ajuda. Tanto esforço foi reconhecido e o felino ganhou o nome de “Jhou Jhou”, o mesmo apelido de Juana. “Fui a primeira que entrei no fogo e a última que saí”, conta ela, que sempre calma, nunca “vira onça”, como a Juma, personagem de Alanis Guillen na novela global.

O animal recebeu uma coleira de monitoramento e, após passar um período de cuidados, no Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), em Campo Grande, foi solto novamente na Serra do Amolar. A onça Jhou Jhou virou um símbolo das fortes queimadas que atingiram a região. Até hoje é possível perceber árvores secas e queimadas pelo fogo. Há ainda um silêncio que paira sobre o Pantanal, que ainda não voltou a ouvir os mesmos barulhos dos bichos como eram antes do incêndio. Todos em uma espécie de luto pelos 17 milhões de vertebrados que morreram.

História

Hoje, o sonho de Juana é terminar seus estudos. Parou no 2º ano do Ensino Médio e, para isso, precisaria ir até Corumbá, a 200 quilômetros ou cinco horas rio abaixo para concluir o objetivo. Com ascendência Aimara, a mesma do ex-presidente boliviano Evo Morales, Juana nasceu em La Paz, de onde saiu fugida rumo a Corumbá (MS) há 17 anos, por conta dos maus tratos de uma madrasta. “Fui criada como uma filha da minha patroa”, conta. Lá conheceu o ex-marido que foi convidado para ser caseiro da base do IHP. Ela levou consigo os três filhos e precisava fazer algo: primeiro foi faxineira, depois aprendeu a cozinhar e passou a exercer a função com destreza.

Há um ano e meio Juana se separou e o ex-marido voltou a Corumbá. Ela segue como uma espécie de guardiã da Serra do Amolar, um dos lugares mais lindos e intocados do Pantanal. “Aqui consigo trabalhar e cuidar das crianças. Quero passar o resto da vida nesse lugar, onde a natureza é o mais bonito”.

Desde que se mudou para o Brasil, só voltou uma vez para La Paz – e sonha que os filhos se formem em Agronomia para trabalhar nas terras da Serra. A comida que Juana prepara é deliciosa. Faz pães, chipas e todas as refeições com um tempero único. Os pratos preferidos dela são o arroz boliviano, o tabule e o macarrão frito com carne seca, típico da região. Hoje, ela cozinha para outras cinco pessoas que vivem na base de hospedagem do Instituto e, também, para os turistas que chegam pelo Amolar Experience, programa do IHP que promove visitações na região.

A cada três meses, Juana tem dez dias de folga. É quando fica em casa ou vai para Corumbá ver a filha que agora estuda em regime de internato. Mulher de poucas palavras e sorriso tímido, a cozinheira tem um metro e quarenta e quatro de altura, é gordinha e tem cabelos presos numa trança transformada em coque no alto da cabeça. Conversa conosco, enquanto cozinha e usa calça de lycra, camiseta verde do IHP e um tênis rosa. No fim do ano planeja viajar e chegar até Cuiabá. “Vou e volto”, garante. A Serra do Amolar precisa mesmo de suas mãos de ouro e do seu jeito tranquilo para seguir sendo esse lugar único.

PS: personagens como Juana ainda passam anônimos e longe da atenção dos principais meios de comunicação – que, durante as queimadas de 2020, deram destaque apenas para a onça resgatada. Essa história chegou a ser oferecida para outros veículos de comunicação, mas foi rejeitada pela falta de factualidade. Mal sabem eles que histórias como a dela atraem pessoas para esses lugares, especialmente turistas, no caso do Pantanal. Que todes que chegam à Serra do Amolar possam tirar sua foto com essa nova pantaneira!

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